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05 fevereiro, 2008

Implicância


Sempre pensei que fosse perfeccionista. E dentre todas as minhas dúvidas, uma das minhas poucas seguranças era a certeza de que o perfeccionismo era uma das minhas escassas qualidades.
Por muito tempo acreditei que o que conduzia aos meus pequenos sucessos não era minha habilidade ou talento para determinadas coisas. Sou uma decepção para mim. Apesar dos seguidos 10 em matemática no Ensino Médio, penei muito para aprender o básico de Cálculo Diferencial e Integral. Nas Químicas teóricas travei uma verdadeira batalha, pois percebi que não havia aprendido absolutamente nada, nem o básico. Já nas “Químicas práticas”, até que não foi tão ruim, tirando o fato que demorei muito a entender a lógica das reações, o porquê de certos procedimentos e etc. Meu diferencial quando entrei pela primeira vez em uma universidade, há quase três anos, era não admitir não entender, não conceber entregar um relatório de prática experimental mal escrito e, além disso, me dedicar nas dissertações de Produção de Texto. Resumindo: o que me levava adiante naquela época era a mania de querer ser perfeita ou pelo menos, a tentativa de aparentar não ser tão burra.
Depois de cansar de dar murro em ponta de faca, resolvi que aquilo não era pra mim. Decidi começar de novo, em algo que eu demonstrasse um pouquinho de habilidade: textos. Imagine o que a pessoa que nunca abria um jornal tinha na cabeça pra optar por Jornalismo? Heuaheuaheuaheua... nada, sandice, loucura total.
Mas mudei e fazer o quê? Estou gostando muito da minha escolha, apesar de duvidar diariamente dela. Não amo ler jornais, mas estou me condicionando a ler pelo menos um por dia. Ah, quando encho o saco de ler jornais, eu tiro férias deles e fico lendo somente coisas consideradas fúteis pela maioria dos jornalistas, como
Cláudia e Marie Claire (adoro ler essas revistas levinhas!). Também leio a Super às vezes, e fico me sentindo a tal quando recebo a newsletter da Galileu e emails da editoria convidando para escolher a capa no blog da revista (não acho as duas últimas revistas nem um pouco fúteis).
Voltando ao perfeccionismo... ele me ajuda em algumas coisas ainda. Mas quando revejo os trabalhos que já fiz, penso: “como tive coragem de entregar algo assim?”. Sei lá, acho que é paranóia minha também, e idiotice de não confiar nas pessoas. Hoje, já mudei muito nisso. Custei, mas acredito bastante na capacidade de realizar ótimos trabalhos da minha patotinha da faculdade.

(PQP – Imagine a “alegria” do Sandro se lesse esse texto desgraçado, com várias fugas do tema e objetividade zero. – Esse texto faz parte das férias, assim como todos os demais que publico no blog.)

Possivelmente não seja perfeccionista, porque são poucas as coisas que faço que ficam realmente boas. Talvez me qualificar como perfeccionista seja uma fuga do óbvio. E o que está na frente do nariz é que sou implicante, cheia de manias. Vivo implicando com tudo, com meu irmão, com minha mãe, com o namorado, com as pessoas na rua que sequer notaram que eu impliquei com elas. Implico com minhas escolhas, com meu cabelo, com meu trabalho, com meus textos, enfim com muitas coisas!É isso, sou uma implicante. Bom, por hoje chega de implicar comigo mesma, chega de texto sem sentido, chega de caraminholar.

Imagem: Relativity, M.C. Escher, 1953.

25 janeiro, 2008

Música



Quinta-feira. Estava perdida no pequeno universo que circunda meu umbigo quando ouvi algo inacreditável. Uma melodia cinematográfica, que pela limpidez e volume me fez duvidar da interpretação que meu cérebro dava ao som transmitido pelos meus ouvidos.
Larguei meu raso mundo e fechei os olhos para poder contemplar melhor a música inédita que invadia a noite. (Sim, fechei os olhos para melhor admirar). Concentrei-me para tentar entender e percebi que não estava ouvindo nenhuma música gravada em um volume anormal.
Estremeci quando me dei conta que estava ouvindo uma gaita-de-fole. Seus acordes vinham da minha rua, tirados da gaita por um padre irlandês.
Não precisei ver a gaita, ou, seu dono manuseá-la para ter a certeza de que aquela foi a música mais linda que já ouvi na minha vida. Nunca imaginei que esse instrumento liberasse uma melodia tão pura e tão emocionante. Ao vivo, o som da gaita-de-fole é imensamente mais bonito do que as trilhas sonoras de filmes.
E é impossível ouvir e não lembrar de Coração Valente, de Mel Gibson com a face pintada de azul e dos prados da Escócia (que só conheço pelas imagens de TV e da Web). A novidade foi descobrir que a gaita-de-fole também é um símbolo da Irlanda.
Não sei por quanto tempo fiquei imóvel, apenas sentindo aquela música maravilhosa que se irradiava sem perder a força. Quando a música parou, vieram palmas acaloradas e fiquei feliz em saber que não tinha ouvido sozinha. Assim pude ter certeza de que não havia sonhado, de que eu tinha sido privilegiada com aquela linda música! Uma música mágica, que me deu esperanças e me serviu de sinal. Deus nunca esquece ninguém e, hoje, me deu um novo presente!



07 agosto, 2007

Reflexão




Há muito tempo tenho pensado em escrever sobre reflexão.
Reflexo é a visão contrária de algo.
É olhar de modo inverso.
Olhar-se no espelho é ver-se ao contrário.
E pensando sobre reflexão percebo que, apesar de tanto pregar essa prática, reflito muito pouco. Um turbilhão de necessidades arrasta meu pensamento e faz com que não reste tempo para as divagações livres.
Às vezes sou obrigada a concordar com Thoreau: pra quê tanta informação? E mesmo estudando para ser uma produtora de informação, questiono a necessidade que se impõe sobre nós, de devorar jornais, de ouvir programas jornalísticos, de assistir aos telejornais, enfim, de ter que estar sempre atualizado sobre tudo.
Pergunto-me muitas vezes se este não é o nosso problema, enquanto seres humanos. Afinal de contas, já dizia o premiado Ilha das Flores de Celso Furtado: o que nos diferencia dos demais seres vivos, não é apenas nosso “polegar opositor”, mas também nosso “telencéfalo altamente desenvolvido”.
Sendo assim, deveríamos usar com mais freqüência nosso telencéfalo, para que de fato, ele torne-se altamente desenvolvido. Pensar, refletir, olhar de ângulos diversos e nunca vistos antes é o início da construção de uma consciência plural, da consciência de que nossos umbigos não são eixos da Terra.


Imagem: Hand with reflecting sphere. M. C. Escher.

05 julho, 2007

Delírio



Os olhos arregalam-se pra tentar compreender, mas não entendem muita coisa. Tudo lá embaixo vai ficando cada vez menor. Onde estou, que visão é essa? De repente, percebo que estou cercada de azul, algodões brancos e luz.
Procuro me ver, mas não consigo enxergar nada além dos meus braços e mãos, completamente estendidos para baixo. Percebo que há alguma coisa muito estranha, sinto-me flutuando. Tento me olhar mais uma vez e a surpresa: sou um balão! Minha barriga está inflada como a lona de um balão de ar quente, meus braços e pernas funcionam como suas cordas.
As gargalhadas que sucedem essa visão são incontroláveis. Meu Deus, sou um balão que está subindo sem parar! Será que o feminino de balão é balona, ou, baleia? Ou será que é um substantivo invariável, exclusivamente masculino? Cada idéia sem nexo. Isso não pode ser real.
A lembrança de realidade me faz ouvir um pluf! Agora estou em queda livre. Que droga... não deveria ter pensado no que era possível. O que via antes pequenino, está crescendo. O chão está chegando perto, muito perto.
Aperto bem os olhos e... ploft!
Não sinto dor e quando meus olhos criar coragem para se abrir, percebem que não há sangue ou pedacinhos de mim espalhados pelo chão. Há uma mandala em flor ao meu lado. Não sou mais um balão e sim uma geléia disforme. Penso em voltar a ser como antes, uma pessoa normal, imagem e semelhança de Deus, e pronto! Basta imaginar e meu contorno original vai se elevando de toda aquela massa amorfa.
Olho-me novamente e percebo que sim, eu sou eu como sempre fui. Corro à procura de um espelho pra conferir. Enfim, o alívio. Não sou mais balão de ar, nem geléia sem forma. Ufa!
Quando já me imaginava segura, sou puxada por um buraco em espiral que se abre sob meus pés. E agora, para onde serei levada? Chega de sonhos delirantes por hoje, é hora de acordar e ter um dia normal.
Imagem: A mandala in my garden, by Jorge S. Lincabur.

10 junho, 2007

À Espera do Sol


Ainda está escuro como breu. No céu não há estrelas e nem a Lua.
A neblina sinistra esconde tudo que não está perto. Caminho devagar para não tropeçar demais.
O frio do inverno me corta a pele e até faz pensar em desistir. Deveria ter me preparado melhor.

Mas o dia vai clarear em breve. Acredito que a neblina anuncia o Sol que está prestes a nascer. E com o Sol, não me importa o inverno.


Espero que começar o dia cedo faça o Sol nascer mais cedo.

26 abril, 2007

A horribilidade do podamento das idéias do sujeito que tenta dissertar sobre um tema que lhe parece interessante


É absolutamente horrível quando se tem um milhão de idéias para construir um texto (uma resenha para a aula de Língua Portuguesa, por exemplo) e lhe dizem que é preciso delimitar mais suas idéias. Que coisa chata... Quando a pessoa escolhe o tema, se cerca de referências, está interessada em aprender e produzir, por que podar idéias? Give me a time, ok?!?!
Já temos que nos conformar com os limites da vida real. Agora também teremos que limitar nossas idéias. Não faltava mais nada... O mundo das idéias agora também está sendo controlado, a liberdade do pensar está sendo abolida.
Precisamos ter muito cuidado para que nossas idéias não brotem, não cresçam além do que certas pessoas querem. Estamos sendo assombrados pelo jardineiro das idéias, que está sempre com sua tesoura na mão, pronto para podar idéias.
Se há perigo em pensar, imaginem o risco que corre quem ousa escrever sobre suas idéias?
Não, melhor nos contermos e não escrever nada muito além do que nos é pedido. Pensar longe, tentar ver adiante, jamais!
Ainda estou contaminada pela Tropicália, portanto, como Caetano Veloso, “eu digo não ao não.”! E vou libertar idéias ilimitadas sempre que tiver vontade!
PS.: A revolta aparente é por causa de uma certa pessoa que se propôe a nos ensinar, mas não nos deixa pensar e só nos poda. O texto é meio confuso mesmo, resultado desta pequena revolta.

10 abril, 2007

Sonho


Alegria, alegria
Caetano Veloso


Caminhando contra o vento
Sem lenço sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou


O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas
Eu vou
Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes pernas bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e de preguiça
Quem lê tanta notícia?
Eu vou
Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não? Por que não?
Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço sem documento
Eu vou
Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou
Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome sem telefone
No coração do Brasil
Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou
Sem lenço sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo amor
Eu vou
Por que não? Por que não?


Prestando atenção nessa letra, percebi que ela trata de muitas das minhas vontades. Assim como também me faz ter inúmeras idéias. Ultimamente ando tendo muitas idéias. Idéias que ainda não consegui cuidar.
Essas idéias brotam e por enquanto, estou deixando que elas cresçam livres, devagarzinho. Daqui a pouco vou ser obrigada a por ordem nas minhas idéias. Ou então, minhas idéias vão acabar se ajeitando sozinhas e as melhores, se mostrarão para mim.
Momento de profusão de idéias só por saber que farei um trabalho sobre Tropicalismo. Momento de pesar, por infelizmente não ter vivido na época que esse movimento aconteceu. Momento de revolta, porque não somos uma juventude rebelde. Somos apenas uma juventude inerte que corre apenas para possuir tecnologia (modismos), sem nenhuma ideologia, alheia à política e que não tem a mínima noção de valores humanos.


PS: Eu não esqueci que tinha blog (juro que lembrei muito dele nesse período de ausência), mas infelizmente não consegui postar por causa do trabalho, dos trabalhos da faculdade, etc.

13 março, 2007

Sobre os muros que nos cercam




Um muro é uma escolha para a visão.


Agora, observemos os muros. Onde eles estão? À nossa frente, ao redor das nossas casas e de tantas outras propriedades? Afinal de contas, o que é um muro? No meu bairro muraram até a igreja. Sinal dos tempos, necessidade ou será a materialização do que antes não se percebia? O que este tipo de edificação pode representar? Que tipo de sentimento um muro pode despertar nas culturas, nas pessoas?


Um muro é um invólucro. Uma proteção. Uma prisão. É o que agrega e segrega ao mesmo tempo. Os muros estão por toda a parte. Os homens adoram construí-los. Houve um tempo em que o faziam para se proteger, sem perceber que esta proteção trazia consigo o isolamento, o aprisionamento. De maneira radical, talvez se possa dizer que os muros são formas materiais do ego, do medo...


Mas o pior tipo de muro é aquele construído em nossos pensamentos, na frente de nossos olhos. Esses muros quase nunca são notados, passam quase que despercebidos, pois estão conosco desde que passamos a nos “entender por gente”, são erguidos pelos nossos pais (que os herdaram dos seus pais), construídos pela sociedade e também podem ser construídos por nós mesmos, algumas vezes por ignorância, outras vezes pelo conhecimento, numa tentativa inconsciente de autodefesa.


Um muro é o que limita a liberdade. Mas a liberdade tem limite? Claro que tem... a sua liberdade termina onde começa a liberdade do outro. Foi assim que me ensinaram na escola. Se for mesmo assim que as coisas funcionam, certos muros são inúteis. Afinal de contas, todas as pessoas que sabem o que é respeito, sabem o que é liberdade... então, qual a utilidade de certos muros? “Ora pois”, nenhuma.


Aposto que qualquer cidadão alemão com um mínimo de consciência concordaria com a inutilidade dos muros. Eles conhecem bem o tamanho da dor que um monte tijolos e cimento empilhados podem causar. Pergunte a um morador de Soweto o que ele acha de um muro (e aqui não me refiro ao muro material, quero dar muito mais relevância ao grande muro social que existia na África do Sul antes do fim do Apartheid, em 1990)... Um morador da bela ilha de Chipre, certamente não gosta do muro que até hoje divide sua capital Nicósia.


Já um chinês falará com orgulho da sua Grande Muralha e falará sem perceber que hoje, ele e seus concidadãos vivem numa cela, num país que quer ser grande baseado na exploração máxima do ser humano, num regime que tem se sustentado desde o início do século passado na construção de muros... Primeiro, veio o “comunismo salvador”, agora a China quer ser capitalista (não há dúvidas que seja a candidata à “potência econômica mundial” mais promissora), mas para adquirir este status, escraviza seus cidadãos, regredindo vertiginosamente no quesito consciência.


Um muro é uma escolha para a visão, porque podemos decidir qual lado do muro queremos ver. Ele é um leque de possibilidades que se limitam. Então, a partir disso, passo a discordar, em partes, com o que me ensinaram na escola “... a sua liberdade termina onde começa a do outro...” Não que o respeito seja dispensável (de maneira alguma!), o que não pode ser dispensável é a visão do todo.


Após tudo isso, chego à conclusão de que não devemos derrubar os muros que nos cercam. Aí você poderia perguntar, mas como não, não são eles que limitam minha liberdade? Sim, são eles que limitam a nossa liberdade. Entretanto, podemos fazer melhor que destruir, não vamos desperdiçar o que já está feito, vamos subir nos muros.


E sobre os muros que nos cercam, poderemos ver muito mais longe, sem nos contentarmos somente com um ponto de vista. Quando conseguirmos ver o todo de cima dos muros, talvez possamos entender o significado de sabedoria e liberdade.


(Maio, 2006)


Imagem: Guernica, Pablo Picasso.

19 fevereiro, 2007

Um susto




Um susto. O despertar súbito. Os olhos se abrem instantaneamente buscando uma resposta. Mas não a encontram. Num esforço descomunal, arregalam-se, mas não há nada além da escuridão. Há um vago odor vegetal, mas não é o cheiro do amanhecer orvalhado. Os braços abandonam o repouso para buscar no chão surpreendentemente limpo e liso um apoio para ficar de pé. As costas estão doloridas, mas os pés não.

Passos medrosos, as mãos trêmulas buscam algo palpável, que possa orientar. Ao erguerem-se acima da cabeça, as mãos encontram um teto. Não é um teto uniforme feito o chão. As mãos o apalpam e encontram longos espinhos, pequenas folhas e galhos muito juntos, retorcidos, ásperos. É dali que vem o cheiro de vegetação.

Os olhos permanecem abertos, mas nada vêem. Inicia-se então uma lenta caminhada. A direção escolhida é rumar em frente, já que tudo é breu. As mãos seguem tateando o caule coberto de espinhos. Os pés simplesmente obedecem à intenção de caminhar, sempre em frente.

Um sentimento de profunda angústia passa a apertar o peito, como se o coração estivesse sendo esmagado. Essa sensação de compressão só aumenta, assim que as mãos se dão conta de que os joelhos vão precisar se dobrar, pois o teto de espinheiros está ficando cada vez mais baixo. Mais alguns passos adiante e é preciso rastejar. O chão liso facilita esta tarefa, mas os espinhos roçam-lhe os cabelos.

Neste momento o desespero é total, mas é preciso seguir em frente e quem sabe, encontrar a luz. Mas alguns metros rastejando e resolve voltar-se para cima, para só então tentar mover aqueles galhos espinhentos. Foi uma operação muito delicada. Apenas defendeu os olhos com uma das mãos e com a outra impulsionou o corpo num giro de 180 graus, que rasgou toda a lateral das roupas e lhe rendeu incontáveis arranhões.

Voltada com a barriga para cima, a primeira providência a ser tomada foi quebrar os espinhos que lhe ameaçavam os olhos. Em seguida, mãos, antebraços, cotovelos, joelhos, canelas e pés, se reuniram para tentar mover o emaranhado de galhos, espinhos, minúsculas folhas... Foi inútil este esforço conjunto, pois nada sequer se moveu. Foram sucessivas tentativas, todas em vão.

Tudo o que queria era ver a luz, estar livre, poder ir para onde quisesse, fazer o que lhe desse na veneta, mas estava presa e todas as tentativas de fuga, de libertação eram inúteis. Poderia tentar voltar, mas desmaiou ali mesmo, extenuada, perdida entre lágrimas e soluços. Talvez um dia acordasse e conseguisse mover aquele teto de espinheiros, e quem sabe conhecer a liberdade.